Atendendo a pedidos vamos abordar o jogo de forma geral. Para isso, começaremos navegando um pouco sobre diversos autores e suas opiniões.
Segundo autores como FREIRE, FRIEDMAN, PAES, BROTTO, entre outros, há muita controvérsia a respeito das noções de jogos, brincadeiras, brinquedo, atividade lúdica e esporte. A linhas que separam os jogos, esportes, ginástica, brincadeiras ou danças são muito tênues, servindo mais para uma definição didática.
BROTTO (2001 p 12) coloca que segundo Friedman (1996) não existe uma teoria completa do jogo, nem idéias admitidas universalmente, e apresenta uma síntese dos principais enfoques projetados sobre o Jogo Infantil:
SOCIOLÓGICO: influência do contexto social no qual os diferentes grupos de crianças brincam
EDUCACIONAL: contribuição do jogo para a educação; desenvolvimento e/ou aprendizagem da criança.
PSICOLÓGICO: jogo como meio para compreender melhor o funcionamento da psique, das emoções e da personalidade dos indivíduos.
ANTROPOLÓGICO: A maneira como o jogo reflete, em cada sociedade, os costumes e a história da diferenças culturais
FOLCLÓRICO: Analisando o jogo como expressão da cultura infantil através das diversas gerações, bem como as tradições e costumes através dos tempos nele refletidos.
O jogo é uma atividade típica do homem. O homem inventa jogos e se diverte com eles desde que se tem conhecimento de sua existência.
MONDIN (1980), em "O Homem Quem é Ele?" traz a imagem do: Homo Ludens (ser que joga e se diverte); Homo Sapiens (ser de vontade, liberdade, amor); Homo Loquens (ser de linguagem); Homo Faber (ser de trabalho e técnica) Para ele, a dimensão lúdica traz uma riqueza a mais á realidade humana, na medida em que envolve inteligência e vontade, ação e habilidade, e supera o conhecer, o querer, o agir, porque implica também alegria, satisfação e liberdade.
Sabe-se que impressões arqueológicas e pinturas rupestres demonstram a existência de certos jogos na antiguidade. Fala-se dos jogos entre os gregos, romanos e incas, e traz a década de 1950 como marco histórico: a introdução dos jogos simulados como instrumentos de aprendizagem, nos Estados Unidos.
JOHAN HUIZINGA, foi professor universitário e reitor da Universidade de Leyden na Alemanha, vivendo entre 1872 e 1945. Foi um importante historiados holandês e pioneiro nessa questão do jogo. Sua obra mais conhecida é Homo Ludens, que demonstra como o jogo está presente em tudo o que acontece no mundo, ultrapassando os limites da atividade puramente física ou biológica, tendo sentido próprio e determinado, ele considera o jogo como algo que é anterior á própria civilização e o define: "O jogo é uma atividade ou ocupação voluntária, exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e de espaço, segundo regras livremente consentidas mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentido de tensão e de alegria e de uma consciência de ser diferente da vida quotidiana"
DHOME (2003, p 16). A palavra "jogos" aplica-se mais ás crianças e jovens, exclui qualquer atividade profissional, com interesse e tensão e, por isso, vai além dos jogos competitivos e de regras, podendo contemplar outras atividades de mesma característica como: histórias, dramatizações, canções, danças e outras manifestações artísticas.
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Para BARROS (1970, p 34), o jogo constitui uma atividade primária do ser humano. É principalmente na criança que se manifesta de maneira espontânea; alivia a tensão interior e permite a educação do comportamento, o aumento da coeficiência de auto-confiança e suficiência ,a expansão do eu, e, ás vezes, a sublimação das tendências instintivas; faz as crianças agirem contra o medo; favorece o desenvolvimento físico, mental, emocional e social.
Para PIAGET, a atividade lúdica surge, inicialmente sob forma de simples exercícios motores. Sua finalidade é o próprio prazer do funcionamento. No período entre dois e seis anos, a tendência lúdica se manifesta sob forma de jogo, a criança tenta reproduzir as atitudes e as relações predominantes no seu meio ambiente; ela será autoritária ou liberal, carinhosa ou agressiva, conforme o tratamento que recebe dos adultos com os quais convive. Dos sete aos doze anos, conforme Piaget, as crianças aprendem o jogo de regras, que predomina durante toda a vida do indivíduo. Esta é uma conduta lúdica, que supõe relações sociais, pois as regras são controladas pelo grupo, sendo que sua violação é considerada uma falta. Para ele, o jogo na criança , inicialmente egocêntrico e espontâneo, via se tornando cada vez mais uma atividade social, na qual as relações interindividuais são fundamentais.
TEIXEIRA e MAZZEI (1967, p. 42), colocaram o jogos como base na educação física da criança, sendo uma atividade formativa bio-psico-espiritual imposta pela própria natureza servindo de motivo para atividades absolutamente indispensáveis na obra educativa. No desenvolvimento, um seguro natural que serve para despertar as capacidades de educando, cria situações através das quais o indivíduo revela o seu caráter e descobre sua alma permitindo intervenções diretas e oportunas.
Para GRAMIGNA, 1993, o jogo é uma atividade espontânea, realizada por mais de uma pessoa, regida por regras que determinam quem o vencerá, ou seja, em sua concepção necessariamente deve haver um vencedor e um vencido. Nas regras do jogo, segundo ela, estão o tempo de duração, o que é permitido e proibido, valores das jogadas e indicadores de como terminar a partida.
CELSO ANTUNES em entrevista cedida a Revista Jogos Cooperativos em Novembro de 2002 define jogo como sendo "uma relação interpessoal definida por regras."
FALCÃO (2003, P1). define jogo como "toda e qualquer interação entre dois ou mais sujeitos dentro de um conjunto definido de regras."
A importância do jogo na aprendizagem.
por Mônica Teixeira
Em nossa edição anterior navegamos um pouco sobre diversas visões do que é jogo. Dentro de nossa proposta de termos diferentes visões, nesta edição navegaremos um pouco no tema jogo e aprendizagem, na ótica de uma psicopedagoga a profa Maria Célia Rabello Malta Campos, em entrevista no site: www.psicopedagogia.com.br.
Qual a importância dos jogos no contexto educacional?
O uso dos jogos no contexto educacional só pode ser situado corretamente a partir da compreensão dos fatores que colaboram para uma aprendizagem ativa. Vemos muitas vezes jogos de regras modificados sendo usados em sala de aula com o intuito de transmitir e fixar conteúdos de uma disciplina, de uma forma mais agradável e atraente para os alunos. No entanto, mais do que o jogo em si, o que vai promover uma boa aprendizagem é o clima de discussão e troca, com o professor permitindo tentativas e respostas divergentes ou alternativas, tolerando os erros, promovendo a sua análise e não simplesmente corrigindo-os ou avaliando o produto final. Isso tudo não é muito fácil de controlar e muito menos de se prever e planejar de antemão, o que pode trazer desconforto e insegurança ao professor. Por isso, ele tende a usar os jogos e outras propostas que potencialmente ativam as iniciativas dos alunos ( como pesquisas ou experiências de conhecimento físico) de modo muito limitado e direcionado e não como recurso de exploração e construção de conhecimento novo.
Piaget afirma que "O jogo é um tipo de atividade particularmente poderosa para o exercício da vida social e da atividade construtiva da criança", você acrescentaria algo a esta afirmação?
Numa visão psicopedagógica que procura integrar os fatores cognitivos e afetivos que atuam nos níveis conscientes e inconscientes da conduta, não podemos deixar de lado a importância do símbolo que age com toda sua força integradora e auto-terapêutica no jogo, atividade simbólica por excelência. Abrir canais para o simbólico do inconsciente não é só promover a brincadeira de "faz de conta" ou o desenho. Qualquer jogo, mesmo os que envolvem regras ou uma atividade corporal, dá espaço para a imaginação, a fantasia e a projeção de conteúdos afetivos, mais ou menos conscientes, além, é claro, de toda a organização lógica que está ali implícita. Por isso, deve-se poder compreender as manifestações simbólicas e procurar adequar as atividades lúdicas às necessidades das crianças.
Qual a importância dos jogos em grupo?
Aprender com o outro é mais rápido e mais efetivo porque é mais prazeroso. Uma das coisas que o jogo assegura é esse espaço de prazer e aprendizagem que o bebê conhece mas que a criança perde quando entra na escola.
O jogo auxilia na construção do conhecimento?
Dependendo de como é conduzido, como procurei mostrar na primeira pergunta, o jogo ativa e desenvolve os esquemas de conhecimento, aqueles que vão poder colaborar na aprendizagem de qualquer novo conhecimento, como observar e identificar, comparar e classificar, conceituar, relacionar e inferir. Também são esquemas de conhecimento os procedimentos utilizados no jogo como o planejamento, a previsão, a antecipação, o método de registro e contagem e outros.
Como o professor deve escolher os jogos para serem usados em sua sala de aula?
Conhecendo primeiramente as condições e as necessidades de cada estágio desses esquemas de conhecimento. O que ocupa uma criança de pré-escola ou um garotão de secundário, cognitivamente falando? Não é questão de oferecer jogos diferentes para cada faixa etária (como vem indicado nas caixas de jogos). Jogos com a mesma estrutura podem servir para várias idades se manejamos a sua complexidade, aumentando ou diminuindo o número de informações. Nos jogos de Senha, por exemplo, podemos variar de 3, 4 ou mais, os elementos a serem descobertos, o que resulta numa diferença muito grande de complexidade da tarefa. Se trabalhamos com dois atributos, cor e posição, colocamos mais dificuldade para coordenar as partes no todo, mas se combinamos de saída as cores, a criança só vai se preocupar em achar a seqüência das posições da Senha. Outro aspecto é o nível de abstração em que a criança vai operar: o mesmo jogo pode ser apresentado por figuras ou apenas verbalmente, caso esse em que o poder de abstrair e de conceituar a partir de proposições precisa ser bem maior.
O jogo sempre foi visto como divertimento, distração, passa-tempo, como é visto no seu trabalho?
Assim mesmo. Se o jogo vira obrigação ou é usado com finalidade de instrução apenas, perde seu caráter de espontaneidade e deixa de ser jogo porque se esvazia no seu potencial de exploração e invenção. Brincar é fundamental. Muitos adultos não sabem brincar, perderam essa capacidade de se descontrair, de se arriscar ou nunca a tiveram e aí fica difícil usar o jogo como recurso tal como eu o entendo
Maria Célia Rabello Malta Campos - Pedagoga com especialização em Psicopedagogia, doutoranda e mestre em Psicologia Escolar pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Docente na pós-graduação latu-sensu em Psicopedagogia da Universidade Mackenzie (S.P.), da Universidade Católica de Pernambuco (convênio UNICAP - CEPAI), da Faculdade Pio Décimo (Aracaju). Supervisora de estágio clínico e institucional em cursos de Psicopedagogia e para profissionais (educadores, psicopedagogos, psicólogos e fonoaudiólogos). É membro do Conselho Nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia, da qual foi presidente no biênio 93-94. Tem diversos artigos publicados, enfocando a avaliação dos problemas de aprendizagem e os fundamentos teórico-práticos da intervenção psicopedagógica, numa abordagem piagetiana e psicanalítica.
Nossa Missão Tornar a Pedagogia da Cooperação acessível ao maior número possível de educadores do Brasil, para que o exercício dos Jogos Cooperativos facilite uma mudança de modelos de ver e sentir o mundo, onde cada vida humana seja dedicada à realização e ao aprimoramento pessoal, em um ambiente de harmonia, paz e confiança mútua.
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"As palavras não têm nenhum significado em si mesmas. Somente as experiências têm significado. Somente se você experimentou alguma coisa, isso terá algum significado para você." Osho