RIO -Nenhuma escola conseguiu vencer mais de uma categoria na disputa do xadrez do 27º Intercolegial, uma realização do GLOBO, com patrocínio master do McDonald's, parceria Sesc Rio e apoio Fecomércio-RJ e Sportv. A competição reuniu 164 enxadristas de 30 escolas no ginásio do Colégio MV1, da Ilha do Governador. Duas instituições da rede pública brilharam com títulos de categorias. Pela livre masculino, o Colégio Estadual Professor Antônio Maria Teixeira, do Leblon, conquistou o ouro; enquanto na jovem feminino, a Escola Municipal Odilon Braga, de Cordovil, foi a grande campeã. Os demais vencedores foram: CEL, do Jardim Botânico (livre feminino); Colégio Santa Mônica (livre não federado masculino); Centro Educacional Elpídio da Silva, de Padre Miguel (livre não federado feminino); e Colégio Barcelos, de Santa Cruz (jovem masculino). Atual campeão do Intercolegial, o Colégio Santa Mônica foi o único a participar de todos os pódios do xadrez. Em mais uma grande campanha, faturou quatro vice-campeonatos (livre masculino; livre feminino; livre não federado feminino; e jovem feminino) e um terceiro lugar (jovem masculino).
"As escolas passaram a incentivar os alunos para que eles joguem e disputem a competição, que cresce a cada ano. "
O Elpídio da Silva também conquistou bons resultados, como o vice-campeonato da jovem masculino e o quarto lugar na livre não federado masculino. Outros destaques do xadrez foram o Cerc, de Vila da Penha, segundo na livre não federado masculino; a CNEC, de Niterói, terceira colocada na livre masculino; E.E.E. Fundamental República, de Quintino, terceiro na livre não federado masculino; CAp Uerj, da Tijuca, terceiro na livre não federado feminino; e Unidade Integrada Garriga de Menezes, de Jacarepaguá, terceiro na jovem feminino. O presidente da Federação de Xadrez do Rio de Janeiro (Fexerj), Ricardo Barata, comemorou o sucesso da parceria com o Intercolegial: - Além de divulgar o xadrez, a competição facilita o acesso de não federados. Alguns se destacam e consequentemente procuram clubes e participam de competições oficiais. O xadrez está voltando a acontecer no Intercolegial, depois de longa ausência. As escolas passaram a incentivar os alunos para que eles joguem e disputem a competição, que cresce a cada ano.
Luis Fernando Verissimo: erudição e vocabulário sofisticado
A era dos centauros
Crônica de Luis Fernando Veríssimo
O xadrez é um jogo violentíssimo. Parte do tempo em que parece estar pensando no seu próximo lance o jogador de xadrez se dedica a imaginar o que faria com o adversário e sua família se não precisasse se controlar. Coisas envolvendo machadinhas e óleo fervendo no ouvido. A única coisa comparável ao xadrez em violência é o polo jogado por mongóis, em que dois times a cavalo disputam a posse de um cabrito através de vastas extensões de estepes, muitas vezes arrasando cidades inteiras no caminho. O polo mongol é o xadrez sem o autocontrole.
Outro jogo violentíssimo é o tênis. Pouca gente sabe que na sua forma original o tênis consistia em dois jogadores se dando raquetaços até um morrer ou pedir água. Só muito depois os ingleses inventaram a bola e a rede para manter os jogadores separados, mas o instinto assassino de parte a parte continua o mesmo. Já um esporte civilizado é o boxe. Não há notícia de jogadores de xadrez ou de tênis se abraçando efusivamente depois de uma partida como acontece com lutadores de boxe, que continuam amigos depois da luta, mesmo porque passaram a maior parte do tempo abraçados.
E o futebol? É uma mistura de xadrez e de boxe. Na defesa um time de futebol depende da exata colocação das suas peças, como no xadrez, mas, como no xadrez, estas peças distribuídas com aparente racionalidade devem sugerir algo de polo mongol na sua truculência e poder de intimidação. No ataque, o futebol depende do máximo aproveitamento de brechas, como no boxe. Ajuda se os jogadores de defesa odiarem a Humanidade como os melhores xadrezistas e os de ataque aceitarem ser golpeados sem ressentimentos, como os boxeadores. O vocabulário de um bom atacante está cheio de palavras que jamais devem entrar na vida de um defensor, a não ser em pesadelos: surpresa, criação, fortuito, invenção. Não se imagina sobre o que defensores e atacantes conversam fora de campo. Sobre futebol certamente não é. Um não reconheceria o esporte do outro.
O meio-campo é onde as coisas se decidem no futebol porque é ali que se dá a metamorfose: bons meio-campistas são os que entram nessa área mágica enxadristas e emergem, lá na frente, boxeadores. Todo time precisa ter pelo menos um centauro, metade cavalo mongol, metade poeta, no seu meio-campo. Já que o Tostão decretou o fim do volante de contenção clássico, o ex-cabeça de área, no nosso futebol, começa a era dos híbridos de luxo: jogadores que combinem a força bruta do xadrez com a dexteridade intelectual do boxe.